Passeata marca o Dia de Luta Antimanicomial em Itabirito

19/05/2017 (14:59)

A passeata aconteceu no centro da cidade e reuniu médicos, psicólogos, pacientes, familiares e sociedade em geral em um só coro, pelo fechamento dos manicômios (Divulgação)

18 de maio é o Dia Nacional da Luta antimanicomial há três décadas. A data luta por uma sociedade sem manicômios e mais humanizada em relação aos doentes mentais. Em Itabirito a data não passou em branco, foi realizada uma passeata no cento da cidade, com intervenções artísticas, oficinas e participações grupos e blocos carnavalescos ligados à saúde mental.

A ação reuniu médicos, psicólogos, pacientes, familiares e sociedade em geral em um só coro, pelo fechamento dos manicômios, criação de serviços substitutivo, como centro psicossocial, residências terapêuticas, além de novas legislações, implantação de um sistema de saúde mental na rede pública e a defesa da Reforma Psiquiátrica Brasileira.

A psicóloga Shirley Gonçalves destaca a importância desta data. “Este dia é um marco no campo da saúde mental no Brasil. É tempo de comemorar os avanços, mas também de repensar a prática diária, visando a valorização das pessoas, enquanto sujeitos de direitos e de transformação, que precisam ser acompanhados, valorizados e encontrarem o seu lugar no mundo”, pontua.

Luizmar Rocha, coordenador técnico de saúde mental de Itabirito, complementa ressaltando como a data apoia e se aproxima pacientes com transtornos mentais a fim de diminuir o preconceito e inseri-los na sociedade. “Hoje é um dia em que os familiares, amigos e pessoas da sociedade devem se achegar e participar da passeata. Assim, acolhendo o outro nas suas diferenças, tratando com mais respeito na sua individualidade, no seu jeito de funcionar, ajudando a construir essa sociedade sem manicômio”, destaca.

Passado de sofrimento

A Fanpaz (Fanfarra da Paz) também participou da passeata (Divulgação)

Em 1987, notícias sobre o que acontecia dentro dos manicômios se espalharam e impulsionaram a discussão sobre a necessidade de uma intervenção social na área de saúde mental. Neste ano aconteceu, em Bauru, São Paulo, o Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental. No congresso se criou o slogan que se tornou a bandeira da luta antimanicomial “Por uma sociedade sem manicômios”. Depois deste ano, o 18 de maio se tornou o dia para continuar a luta por uma sociedade sem manicômios e para lutar em defesa e promoção da dignidade dos portadores de transtorno mental

Luizmar Rocha relembra como era o tratamento destinado a pessoas com transtornos mentais dentro dos manicômios. “O que nós tínhamos há 30, 40 anos atrás era um modelo assistencial, onde o portador de sofrimento mental era tratado dentro dos muros do manicômio, sendo um tratamento à base da força, violência e desrespeito humano. Sem reconhecimento destes pacientes como sujeitos de história, como sujeito com direitos e deveres. Era um tempo em que os pacientes eram tratados como animais”.

Luzimar ainda complementa comentando quais eram os tipos de tratamentos utilizados nesses pacientes. “Os tratamentos eram a base lobotomia e eletrodo fisioterapia, que apagava a consciência e o campo emocional do paciente. Eram métodos a base da força e violência para tratar esses pacientes, que eram vistos mais como dejetos”, conclui.

Avanços

A passeata terminou na praça da Estação, com intervenções artísticas e oficinas (Divulgação)

Alguns frutos desta luta já foram colhidos, entre eles a aprovação da Lei 10.216, que defende os direitos das pessoas que precisam do tratamento para saúde mental e estabelece a necessidade da reestruturação da atenção em saúde mental, além de promover a ideia de um tratamento que não tire dos pacientes suas liberdades e seus direitos de cidadãos.

Diversos serviços foram criados até o momento a fim de garantir a inclusão social de pacientes com transtornos mentais. Além, disso, houve a redução de número de leitos psiquiátricos e um aumento do número de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem aos pacientes um tratamento adequado, no qual não é necessário um isolamento da comunidade e de sua família.

Ainda de acordo com Luizmar Rocha, a data é motivo de comemoração dos avanços alcançados até aqui, além reivindicar mais direitos. “Há 30 anos estamos avançando, porém ainda podemos melhorar. Existem alguns setores conservadores na sociedade que são contra a reforma psiquiátrica. Precisamos avançar para conscientizar que os portadores de sofrimento mental também precisam ser acolhidos e respeitados. Precisamos continuar implementando políticas públicas que garantam a eles um novo modelo de tratamentos pautados na inclusão social e inserção ocupacional. Assim, essas pessoas podem participar da sociedade como cidadãos com direitos e deveres”.