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Entrevista exclusiva com o jornalista Romeu Arcanjo, do site Minuto Mais

Política e outros assuntos foram abordados no bate-papo.

A 6ª edição do Jornal Sou Notícia traz uma entrevista exclusiva com Romeu Arcanjo, jornalista do site Minuto Mais. Temas como o jornalismo na atualidade, suas experiências na área e política foram abordados durante a conversa. Na versão impressa, a entrevista teve que ser editada, em função do espaço reservado para a seção. O Sou Notícia disponibiliza abaixo a íntegra da entrevista. Confira!

Como e quando surgiu o interesse de ser jornalista?

A princípio, eu queria ser veterinário. Depois, quando eu entrei no segundo grau, eu descobri que eu não gostava muito de biologia. As duas únicas matérias que eu gostava eram português e história. Então, o caminho foi fazer comunicação mesmo. Seria um curso no qual eu pudesse conciliar essas duas disciplinas.

O que mais te atrai no jornalismo?

É poder trazer informações para as pessoas. Que eu possa mostrar meu trabalho, informando as pessoas. Isso pra mim é muito importante. Porque no fundo, o dinheiro é muito pouco. Mas o prazer de ter as notícias que eu escrevo veiculadas, divulgadas, espalhadas pela cidade, é inenarrável.

O que você pensa sobre a não obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão?

É horrível. Péssimo. É nítida a qualidade de algo feito por uma pessoa que tem os conceitos de estrutura da notícia; de ética; do que pode ou não fazer; qual foto pode ser colocada e qual não pode; os cuidados que se deve tomar, como por exemplo não colocar nome de menor de idade na matéria; o próprio cuidado com o menor de idade. Esse tipo de preocupação não existe em quem não tem a formação jornalística. Quem não tem a formação tem todo o direito de passar a informação. Só que quando assume um jornal, a pessoa passa uma ideia de credibilidade sem ter critérios para isso.

Tem algum jornalista que o inspirou na profissão?

Eu estava pensando nisso outro dia. O Paulo Henrique Amorim era minha referência, quando ele apresentava o Jornal da Band. Era um jornal extremamente polêmico e forte. Agora que ele apresenta o Domingo Espetacular, ele se entregou ao sistema e se transformou num jornalista mediano, muito diferente do que ele era antigamente.

E como você avalia o trabalho dele no blog Conversa Afiada?

Eu acho que ele vai para um caminho perigosíssimo, defendendo os bandidos do PT. Isso é extremamente arriscado. Fazer jornalismo e fazer humor tem algumas semelhanças. O humor geralmente critica. Esse humor puxa-saco não funciona. O jornalismo puxa-saco também não. O pessoal gosta de crítica. O povo gosta de quem é contra tudo e todos. E, a partir do momento que o Paulo Henrique abraça os bandidos do PT, ele vai para um caminho muito perigoso.

Antigamente, o jornalista era visto como uma figura importante no cenário político. Antigamente, o jornalista era visto como uma figura importante no cenário político. Você acha que isso continua ou em qual outro cenário o jornalista tem se destacado?

Eu comprei um livro no EPA que fala sobre a origem do jornalismo e é exatamente isso que você falou. Antigamente, nos primórdios do jornalismo, só existia o jornalismo político. Não existiam outras editoriais. Depois começou a aparecer editoria de meio ambiente, economia, comportamento, esporte. Eu acho que o segundo caminho do jornalismo, pensando na grande imprensa, seria o jornalismo esportivo. É esse caminho que tende a crescer. As transmissões de futebol, por exemplo, motivou avanços na tecnologia, por ser necessário fazer uma narração ao vivo, do que está acontecendo no momento, fazendo com que as transmissões ficassem mais dinâmicas. As duas grandes áreas do jornalismo hoje são política e esporte.

Na sua opinião, quais sãos os maiores desafios da profissão?

Aqui, em Itabirito, os desafios são característicos de cidade pequena. Quando você noticia algo contra alguma pessoa, um caso de corrupção, por exemplo, a pessoa que está sendo denunciada acredita que é algo pessoal; que você é um babaca que está querendo colocar a vida dela numa situação ruim. Enfim, essas pessoas não enxergam que, na verdade, é um profissional que está querendo divulgar o que acontece na cidade. No fundo, tanto o G1, quanto o Minuto Mais, quanto o Sou Notícia, são feitos da mesma forma. Um jornalista, um repórter, que vai procurar a informação, e divulga aquilo que apurou, com a intenção de informar. Os desafios do jornalismo no interior de Minas, como no caso de Itabirito, são maiores. Muitas vezes não temos sequer o respeito das pessoas acusadas. Eles tentam diminuir nossa condição, desqualificando nosso profissionalismo.

As mídias virtuais proporcionaram aos jornalista um novo espaço: a criação de blogs. Você acha que isso afeta a questão da imparcialidade? E até que ponto um jornalista deve expressar suas ideias?

É um complemento. Eu acho que é uma forma de você usar outras ferramentas, para trabalhar a opinião. Mas, no jornal, os jornalistas continuam tentando transmitir imparcialidade, uma busca que é eterna. O jornalista pode sim ter um blog onde ele expresse suas opiniões. Sobre a questão da imparcialidade não acho que atrapalha, pois os espaços ditos como imparciais continuam. A opinião do jornalista só cabe na notícia nas entrelinhas. Ele não pode escancarar a opinião dele na notícia. O que pode ser feito é transmitir a opinião num artigo, numa coluna, ou editorial, mas na notícia não. Me lembro uma vez, quando eu trabalhava num jornal chamado Jornal do Barreiro, em Belo Horizonte. Teve uma combustão num alto forno da Mannesmann e dois funcionários foram encaminhados para o hospital. Eles ficaram completamente queimados. Eu nunca vi uma ferida tão exposta como nesses dois casos. Eu, escrevendo essa matéria, fiz o que chamamos no jornalismo de nariz de cera. Do primeiro parágrafo até o quinto, eu comecei falando da revolução industrial no século XIX. Eu era meu esquerdista na época. Meio, não. Eu era completamente esquerdista. Comecei falando dos funcionários que trabalhavam nas fábricas, emitindo minha opinião sobre o fato, deixando subentendido que havia ali uma exploração, quando na verdade a notícia era: aconteceu dia tal, tal horas, uma combustão na Mannesmann que vitimou dois funcionários. Essa era a notícia! E eu opinei. Com o tempo, fui aprendendo que a minha opinião tem pouca importância. O importante é o fato.

Você é uma pessoa que gosta de falar sobre política. Qual a importância disso na sua vida e que análise você faz, de forma geral, da atual situação?

A política é importantíssima pra mim. Sou apaixonado por política. Gosto de me informar sobre o assunto e o jornalismo político é a editoria que eu mais gosto. Eu acho que o país está evoluindo. Os corruptos estão indo pra cadeia. Claro que ainda faltam muitos, mas eu acho que os primeiros passos estão sendo dados. A Operação Lava Jato é uma evolução e outros políticos corruptos devem ser presos. O Brasil de hoje, na minha opinião, é melhor que o Brasil de ontem. Quem poderia imaginar, há 20 anos, que um político poderoso, ex-presidente, seria preso? Isso era inimaginável! E hoje nós vemos isso acontecer. É lógico que há muita discussão para ser feita sobre o assunto, mas o fato é que roubar hoje no Brasil não é tão fácil como era antigamente.

Sobre as próximas eleições presidenciais, você está otimista ou pessimista?

Eu estou pessimista. Bastante. A escolha vai ser pelo menos pior. Eu realmente não estou vendo nenhum candidato que seja ideal igual eu via antes. Quando eu era esquerdista, tinham aqueles que eu pensava: esse é perfeito; quase um semideus. Outros eu já não gostava muito…hoje em dia não! Hoje vejo tudo mais ou menos parecido; da mesma forma. Não tem ninguém que mereça, de forma veemente, meu voto. Eu vou votar, porque não voto em branco e nem voto nulo. Mas, acho que vou ficar quietinho. Vou escolher um candidato; não vou falar qual é; não vou colocar no Facebook. A ideia é essa. Pelo menos é isso que eu penso agora.

E o que um candidato precisa pra ser considerado ideal?

Ele tem que ser honesto. Fazer um esforço monstruoso pra ser honesto. E tem que gerir bem a economia. O resto, o Brasil caminha. Eu sou a favor do estado mínimo. Eu sou um cara de direita liberal. Ou seja, eu sou a favor que o estado seja o menor possível. Veja o caso dos Estados Unidos. Lá as coisas funcionam de uma forma espetacular. É um caso que vai pra Justiça e quatro meses depois está decidido. É uma loja que emprega várias pessoas e essas pessoas têm um salário bom. A população tem condições de comprar um carro bom e morar em uma boa casa. Então, é uma máquina bastante funcional. O país funciona de forma muito eficiente. Lá os direitos dos seres humanos são extremamente respeitados. Nos Estados Unidos não se admite que cometa crimes de raça, por exemplo. Acontece? Sim. Mas a lei é severa. Aqui, não. É por isso que eu concordo em deixar a economia caminhar, com menos impostos. E se o político tentar ser menos corrupto, ele vai pra um caminho muito positivo. É preciso morrer tentando ser honesto!

Muitas pessoas do público geral criticam os patrocínios e anúncios nos veículos de comunicação. Você acha que é possível sobreviver fazendo um jornalismo de qualidade, sem financiamento e sendo uma mídia independente?

É impossível fazer jornalismo independente sem o anúncio. A Veja, por exemplo, era uma revista super grossa e com muitos anúncios. O Roberto Civita, filho do criador do Grupo Abril, falava que a única forma de ser imparcial é tendo muitos anunciantes. Isso ajuda no momento que é preciso denunciar um dos anunciantes, por exemplo. Caso isso tenha que acontecer, você tem outros. Quando você tem um ou dois anunciantes, a imparcialidade fica comprometida.

Uma parte negativa da internet são os comentários ofensivos e os ataques dos haters. Isso o tira do sério?

Me incomoda em alguns aspectos. Quando eu percebo que é algo relacionado ao que a pessoa pensa e a opinião dela, eu não me sinto incomodado. Mas, quando a pessoa questiona minha competência, eu fico muito ofendido. Quando me julga com inverdades também. Mas se ela está apenas discordando da notícia por uma questão de opinião, eu não me importo. Se o motivo do ataque é a minha ideologia eu até me divirto. Recentemente, eu fiz uma matéria pro Minuto Mais falando sobre um erro gramatical na letra da música Metamorfose Ambulante, do Raul Seixas. Eu me diverti muito com os comentários. Fãs do Raul Seixas mandando eu respeitar a história dele, proferindo palavrões…enfim, me detonaram. Mas ninguém veio dizer que a análise gramatical estava errada. Se fosse esse o caso, eu ficaria ofendido. Mas quando não é, acho até saudável discordar da minha opinião. O que eu não gosto é que coloquem em cheque meu caráter e minha competência. Estou trabalhando nisso, mas tem sapo que é difícil de engolir.

Possui alguma história mais marcante que viveu com o seu trabalho?

Todo acidente de trânsito é sempre uma coisa pesada. Ver uma mãe chegar no local do acidente onde o filho morreu, o que eu já tive que presenciar diversas vezes, é a coisa que mais mexe comigo. Se eu pudesse escolher, eu preferiria não ver essa situação. Sempre é uma experiência terrível.

O que você pensa sobre o futuro do jornalismo e as novas formas de se fazer jornalismo?

Eu não penso muito sobre essa história do futuro do jornalismo. Prefiro ir levando minha vida. Mas, conversando com alguns amigos da imprensa, eu ouvi uma vez do Délio, da assessoria de comunicação da Coca-Cola, que o futuro do jornalismo é a imprensa do interior. Que as grandes empresas sabem da importância desses veículos de comunicação do interior, porque a maioria da população brasileira vive no interior. Então eu acho que o futuro é esse. Focar nas coisas que acontecem num raio de, no máximo, 50 quilômetros. No nosso caso aqui, de Itabirito, divulgar notícias de Mariana, Ouro Preto, e que a população dessas cidades possam replicar as notícias. Esse é o futuro.

O que você falaria para as pessoas que desejam ser jornalistas?

Estude inglês. Fale inglês. Procure aperfeiçoar seu inglês ao máximo, porque isso vai te fazer muita falta. Quem faz jornalismo geralmente é porque gosta. Quanto mais você estudar, mais competente você vai ser e mais valorizado será pelo mercado. É lógico que o mercado vai te levar para lugares que talvez você não queira ir. E ai você tem que ter a capacidade de fazer esse trabalho também. Eu, por exemplo, nunca pensei que eu poderia fazer assessoria de imprensa e de comunicação. Jamais. Quando eu estudava, queria ver o circo pegando fogo. Eu não queria fazer o jornalismo de conciliação. Queria fazer o jornalismo de denúncia; de polêmicas. No entanto, em vários momentos da minha vida, eu fiz e faço assessoria e eu fui me adaptando; fui gostando da história. Tendo informação, formação e estudando, você acaba tendo capacidade de desenvolver um bom trabalho. Muitas vezes, trabalhando em campanha política, por exemplo, já que jornalista também trabalha em campanha política, ele não concorda ideologicamente com o candidato para o qual está trabalhando. Mas, se o jornalista ler, estudar, se aprofundar nas questões que envolvem assessoria de comunicação, ele consegue desempenhar um trabalho satisfatório.

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