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As Viúvas: Viola Davis à frente de um thriller que estala de eletricidade

Combinando a tensão de um plano de assalto a um comentário social contundente, o diretor de “12 Anos de Escravidão” faz seu melhor trabalho até aqui.

Não discuto o talento do diretor inglês Steve McQueen, de FomeShame 12 Anos de Escravidão (todos com seu ator-fetiche, Michael Fassbender, que vive martírios nos dois primeiros filmes e impinge martírios a outros no terceiro). Mas nunca fui grande admiradora de McQueen, por conta do seu tom que – pessoalmente – acho pomposo e grandioso. As Viúvas, porém, acaba de me converter: trata-se de um filmaço impossível de classificar (transita de maneiras inesperadas entre o thriller, o drama, o suspense, o comentário social e a fábula política) sobre quatro mulheres que, tendo perdido os maridos durante um assalto, veem-se não só viúvas e arruinadas, como encostadas na parede: junto com os quatro maridos, foram incinerados 2 milhões de dólares – e o dono do dinheiro os exige de volta, não importa como. A única opção para Viola Davis, Elizabeth Debicki e Michelle Rodriguez é recrutar a cabeleireira interpretada por Cynthia Erivo (Carrie Coon, a quarta mulher, mostra-se curiosamente alheia à situação) e cometer elas mesmas um roubo – o que fará com que seus caminhos cruzem com os de dois rivais na disputa à câmara municipal, um herdeiro político (Colin Farrell) e um traficante negro (Brian Tyree Henry). É um estouro: um filme tenso, todo músculos e tendões, com desempenhos fortíssimos. Começando pelo de Viola, que afinal ganha aqui um roteiro à altura de suas assombrosas possibilidades.

Leia a seguir a resenha completa:

Tiroteio e Crítica Social

Em As Viúvas, o diretor de 12 Anos de Escravidão flexiona seus músculos num thriller elétrico que, aos poucos, faz um comentário incisivo sobre o (mau) estado das coisas

Veronica, Linda, Alice e Amanda nem se conhecem, mas ficaram viúvas ao mesmo tempo – no instante em que a polícia mandou tal quantidade de balas contra o furgão de uma quadrilha de assaltantes que o veículo explodiu. Elas têm um problema em comum: o dono dos 2 milhões de dólares incinerados junto com os ladrões quer o dinheiro de volta. “Quer” é maneira de dizer: exige, com o tipo de argumento que não deixa dúvida. Veronica (Viola Davis), a primeira a sentir a pressão, por ser viúva do chefe do bando (Liam Neeson), tenta vender sua única herança – o último plano de assalto elaborado pelo marido. Como o negócio não anda, julga que só há uma saída: convoca as outras mulheres para executarem, elas mesmas, a ação.

À primeira vista, As Viúvas parece um projeto pouco característico do diretor inglês Steve McQueen, afeito àqueles temas que vêm com maiúscula – a morte na prisão do membro do IRA Bobby Sands em Fome, o nojo, êxtase e compulsão que vitimam um viciado em sexo em Shame e o autoexplicativo 12 Anos de Escravidão. Adaptado de uma série inglesa criada por Lynda La Plante em 1983 e roteirizado pela escritora Gillian Flynn, de Garota Exemplar e Sharp ObjectsAs Viúvas, entretanto, é o filme mais potente do diretor até aqui. McQueen faz não só suspense eletrizante como também um comentário incisivo sobre as situações diversas de dependência em que as mulheres se veem ou se deixaram ficar: o marido que perde dinheiro no jogo e arruina o negócio de Linda (Michelle Rodriguez), o que mima Alice (Elizabeth Debicki) num momento e no outro a espanca, e o que lega a Veronica uma situação terrível e, ainda por cima… – não convém dizer. A quarta mulher, interpretada por Carrie Coon, é um enigma, o que leva o trio a recrutar a cabeleireira Belle (Cynthia Erivo), uma mãe solteira cansada de se equilibrar entre vários empregos. Viola à frente, o elenco é um estrondo.

De alguma forma, essa história se emaranha com outra que se vai desnovelando, sobre um clã político que, pela primeira vez, encontra concorrência nas eleições para a câmara municipal: Jack Mulligan (Colin Farrell), que dava como certa sua vaga de vereador, está ameaçado por Jamal Manning (Brian Tyree Henry), um traficante negro que quer a um só tempo legitimar suas atividades e ganhar poder para facilitar suas ilegalidades. Jack despreza seu pai (Robert Duvall), mas segue pelo mesmo caminho que ele; seu programa de financiamento a microempreendedoras não passa de um esquema de extorsão. Jamal posa de candidato que de fato vive na comunidade carente que pretende representar, mas é um farsante que explora sua cor e seu meio sem o menor pejo. Vale notar, aliás, que o enredo se passa em Chicago, uma das cidades americanas mais assoladas pela corrupção política, a qual engendra outras formas de corrupção, em todas as esferas. Sem nunca deixar de ser um thriller musculoso e terso, assim, As Viúvas mais e mais se metamorfoseia em algo inesperado: uma mirada lúcida sobre as coisas que só mudam para continuarem exatamente iguais.

Confira o trailer:

As informações são da Veja.

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